Trump não mete medo, o Brasil sim

Trump não mete medo, o Brasil sim

 

Donald Trump parece ser a nova face da barbárie. Não é. Expressa apenas o rosto do conservadorismo americano que assusta, mas que existe e semeia o mau há muito tempo, por exemplo, com as ditaduras dos anos 60 e 70 na América Latina – sinônimos de censura, tortura e morte – e que o mundo, comodamente,  parece ter esquecido. Ele promete restaurar o antigo poderio da América. Não conseguirá. A América já tem o poder. E nunca deixou de tê-lo. O problema é a forma de usá-lo. Por que colocar o poder a serviço de um mundo mais desigual e autoritário e não em favor da democracia e de um mundo menos contraditório onde a vida seja boa e promissora?

Cabe a pergunta: qual é o centro de poder da América? A causa primeira que não pode ser ignorada: a liberdade, a igualdade de oportunidade, o valor do trabalho, o culto ao pensamento e crítica à racionalidade, uma filosofia que no curto período entre os séculos XVIII e meados do século XX – da época de Jonathan Edwards à de John Dewey – nasce e se desenvolve sem os atavismos do nacionalismo e do dogmatismo. Exemplos dessa realidade são Thomas Jefferson e William James, ambos herdeiros do iluminismo norte-americano, que, por sua vez é herdeiro do iluminismo europeu.

Jefferson (1743-1826), que pode ser comparado ao imperador e filosofo romano Marco Aurélio, destacou-se como um homem universal em meio a homens universais no tumultuado período de formação da República Americana. Foi quem melhor encarnou o espírito iluminista, que pregava o saber comum a todos, em oposição ao puritanismo autoritário e provinciano, abrindo as portas da América para as lutas sociais, a liberdade religiosa e a felicidade humana.  William James (1842-1910) , famoso por ter  introduzido a ideia do pragmatismo em âmbito mundial, pelo refinado senso de individualismo e o significado da existência humana. Colocou-se numa visão intermediária as tendências   chamadas à época de “irrealistas” e realistas do pensamento filosófico. Não era um pessimista. Não pensava em ideia pré-fabricadas, mas procurava respeitar o livre arbítrio e escapar do universo das repetições mecânicas.

Como Jefferson, era um humanista. Nada, segundo Jefferson e ele, podia permanecer como um livro fechado toda a vida. Nem mesmo a ética. Jefferson argumentava: a liberdade de um homem não pode ser violada sem que com isso se  negue o valor, a perfectibilidade ou a bondade essências da humanidade. A democracia era, segundo ele, o exercício permanente da razão.

Como pode uma sociedade com tal história ceder a vontade de um homem ou um grupo conservador? Hitler, na Alemanha só chegou ao poder depois que grande parte da esquerda foi eliminada fisicamente pela extrema direita, inclusive Rosa Luxemburgo. E com isso a possiblidade de reação imediata, com o nazismo tonificando, com o néctar da ilusão, o pensamento mais conservador ou ingênuo e desesperado por uma centelha da esperança.

Hoje, na América a questão é se a democracia irá resistir. A resposta começou a ser esboçada no dia da posse de Donald Trump, em várias partes do mundo, com uma marcha que só em Washington mobilizou 500 mil pessoas.  O que virá a seguir?

Ignorar as razões da súbita força conservadora na América, equivale a ignorar o medo, pânico mesmo, que a instabilidade econômica, causa nas pessoas. O drama exige mais do que soluções verbais ou vazias, como advoga Trump –  leia-se nacionalismo – , exige sim ação que mude estruturas e implante o otimismo como perspectiva de presente. Ações que renovem e ampliem a democracia americana no dia-a-dia, como fez o chamado Obamacare que aumentou em 20 milhões o numero de americanos que não tinham cobertura de planos de saúde ou combatendo o racismo, fonte de aguda violência na sociedade desde a guerra civil.

O duelo entre o atraso conservador e o futuro da liberdade na América vai exigir do mundo, a começar pelo próprio EUA, ações públicas e objetivas para fundir promessas e ações. A crença no livre arbítrio tende a ajudar a ressuscitar valores e, sobretudo, a harmonizar palavras e ações.

A humanidade não está diante de uma onda irrefreável de retrocessos graças a Trump. Está, sim, diante da exigência de um novo Renascimento para neutralizar a pregação de Trump, cujas raízes são antigas. É aconselhável lembrar que o Renascimento não foi marcado apenas pela beleza e a criatividade artística, mas pela eclosão de graves conflitos sociais como as guerras camponesas, na Alemanha, as invasões de cidades européias pelos milenaristas e a revolução do protestantismo de Martin Lutero. Pode-se afirmar que o embrião das revoluções nasce naquele momento. O mundo terá de mudar, e profundamente, para melhor. Livrar-se dos anacronismos acumulados por todos esses anos.

No Brasil, precisamos encontrar caminhos que não comecem e terminem na crítica a Trump. Para sair da crise , é preciso não ficar numa posição sebastianista esperando que o future chegue milagrosamente.  É indispensável entender o que está acontecendo e reagir. Precisamos assimilar a ideia de que existem soluções e que estas começam por um apelo à ação do governo e da iniciativa privada para reativar a economia. E isso não se faz com demissões e cortes de gastos, mas com políticas públicas coordenadas e claras, com objetivos e vontade de realizar.

O grande adversário é o pessimismo. É necessário tomar iniciativas para baixar preços, baixar impostos, baixar juros, ativar investimentos e penar diferente. Recriar o sistema de preços, lucros e custos. Vencer as adversidades com remédios reais. Ou seja, devemos reconhecer como um fato concreto que as condutas precisam mudar, que o dinheiro precisa voltar a ter valor, que investimento em educação, saúde e infraestrutura não são supérfluos e que os horizontes de futuro sejam como portas abertas para a realização individual e coletiva.

Inertes não é possível continuar. Pois na inércia não há felicidade possível. O exemplo da América é ilustrativo. Contra a escalada conservadora, sua atitude é de mobilização. Por que entre nós também não nos mobilizamos? Não apenas contra Trump, mas contra a maré de adversidades que está próxima de nós. O Brasil é o pais do presente, é o pais que está nas ruas. É um pais feito, triste, problemático, vincado pela barbárie? É, mas dele não podemos fugir. Temos, sim, que reavivá-lo. Como a América que se levanta pacificamente contra Trump. E protesta.

Trump não mete medo, o Brasil sim