Mídia e candidatos

Mídia e candidatos 

Francisco Viana*

 

As eleições se aproximam e, com elas, um dos grandes dramas dos candidatos à representação pública: como lidar com a mídia? Até então, o marketing tem sido o caminho dominante para a comunicação. Agora, o quadro mudou: ao lado do marketing torna-se indispensável o diálogo político com jornalistas por duas razões principais: a mídia tornou-se determinante para os resultados nas urnas, em parte pela sua credibilidade, em parte pelo seu poder de fazer denúncias, demolindo carreiras políticas antes mesmo que estas comecem; e o candidato é frequentemente compelido a esclarecer questões, falar dos seus planos, ser questionado.

Por isso, é preciso treinar. Fazer o que tecnicamente se chama de mídia training e, na prática, significa saber responder perguntas simples, tais como: o quê, quem, onde, como, quando,  por quê e em que contexto os fatos acontecem.  Parece simples, mais não é. Todas essas questões exigem, por exemplo, respostas objetivas, diretas, concisas. Frases com sujeito, verbo e predicado. Tudo isso exige treino. Fazer e refazer entrevistas.

Não se trata apenas de recitar respostas. Simula-se entrevistas ao vivo, entrevistas em estúdio, os posicionamentos, as soluções para problemas que inevitavelmente vão surgindo as roupas – que geralmente devem ser confortáveis e desprovida de adornos que deformam a imagem no vídeo –  e a escolha dos locais para receber os jornalistas.

E mais. É inevitável treinar a pronúncia para falar português com clareza, traduzindo siglas, evitando palavras estrangeiras, procurando falar pausadamente, sem pressa, mas sempre com um objetivo. Essencial ter postura, olho no olho, esquecendo a câmara.

Sintetizando, o treinamento é exaustivo, repetitivo, prolongado. Mas o retorno é sempre da melhor qualidade. Sobretudo porque se aprende como trabalhar os jornalistas, podendo-se assim evitar contradições ou reduzi-las. Aprende-se a fazer pautas, sugeri-las, distinguir o que é notícia de interesse do candidato, notícia de interesse da sociedade. Boa pautas significam boas notícias. Boa percepção dos fatos pode evitar crises, eleva a convergência interna. Na antiguidade,  o bom comunicador falava com os deuses; hoje, os deuses é a sociedade, seja por meio da mídia tradicional, seja por meio das mídias sociais. E que sabe falar com os novos deuses, ganha em credibilidade, ganha na redução dos conflitos.

Treinando, aprende-se a pensar como jornalistas e como cidadão. Separar o que é particular do que é geral. Deixa-se de lado o hábito de pensar que a mídia vai acreditar em tudo que se diz. Relacionar-se com a mídia é como fazer psicanálise institucional: aprende-se a ser civilizado, aprende-se a separar o que é fato do que é manipulação dos fatos, o que é verdade objetiva de mentira e, em especial, aprende-se a líder com a razão dos fatos.

Treinando, aprende-se o alcance e abrangência do planejamento estratégico. Aprende-se a criar um clima de trabalho cooperativo, a perguntar-se diariamente: como faço para me comunicar melhor? Como posso evoluir no dialogo com a mídia?

No treinamento, não há erros porque quando se erra é quando mais se acerta. É assim que se constrói  a arte da linguagem. O modelo básico é a Televisão, pois quem dá uma boa entrevista para a TV fala com qualquer veículo corretamente. Por isso, as entrevistas precisam ser gravadas e discutidas com os participantes. O espaço do treinamento é o local para se errar. Portanto, quem erra acerta, pois os erros dificilmente são esquecidos. A característica do método é válida para qualquer veículo: técnica para falar corretamente e  visão social são princípios permanentes. Não são verdadeiros porque garantem o diálogo e a construção da Confiança. Garantem o diálogo e a construção da Confiança porque são verdadeiros.

 

* Jornalista e mestre em filosofia política (PUC-SP)

Mídia e candidatos