Em defesa de João Santana

Em defesa de João Santana

por Francisco Viana

Oh noite abençoada; eu tenho medo
Que, por ser noite, tudo seja só sonho,

William Shakespeare, Romeu e Julieta

O que surpreende é o silêncio. Ninguém diz nada, ninguém discute a questão, é como se João Santana não tivesse sido preso, nem tivesse sido condenado à prisão. Ou mesmo, sequer existido. No entanto, ele foi o marqueteiro da presidente Dilma Rousseff e, até recentemente, um dos comunicadores mais influentes do país.

Espesso véu do silêncio cobre tudo o que acontece por força da Operação Lava Jato. Ninguém quer se envolver. Nem contra, nem a favor. Não é assim, e não deveria ser, onde há liberdade de expressão. E onde a imprensa não é contra o poder, a exemplo do que se imagina hoje na Europa, em particular na França, ou nos EUA, onde o presidente Donald Trump, declarou guerra aberta à imprensa, incluindo grandes redes de TV, como a CNN,  e grandes jornais, a exemplo do The New York Times. Não, a liberdade existe para que se debata, se exerça o saudável direito de discordar.

Grassa um medo invisível que lembra os sombrios tempos da ditadura militar. Por que apenas Santana foi preso e agora foi condenado, embora responda em liberdade? Quem são os responsáveis, de fato, pela caixa 2 das campanhas políticas no Brasil? Por que a questão não é investigada a fundo e com transparência? Santana, quando preso, disse que se fosse para ser tratado com o rigor que ele estava sendo tratado a fila dos possíveis culpados por práticas elícitas, ou no mínimo suspeitos, seria tão grande que se estenderia de Curitiba, onde ele se encontrava prisioneiro, até Brasília. Verdade?

Talvez, esse tema seja por demais espinhoso. Além de pessoas e campanhas, atingiria o próprio marketing político que, é sabido, não envolve apenas talento e visão política. É, como disse o próprio Santana, uma questão de pegar ou largar. Quem não aceita determinadas práticas, de cara, está fora do jogo. Por quê? No futuro, quando a ética na política for a regra, não a exceção, o marketing político – comunicação política seria mais correto – será lembrado como uma doença da linguagem e mais do que isso um exercício de ilusionismo político. Mas, então, o país será outro e o exercício da cidadania terá ganho nova textura.

O Brasil vive hoje um dramático paradoxo. É uma democracia, pelo menos assim se define, mas evita discutir as raízes da sua Cultura da violência que é parte da sua identidade tanto quanto o samba, o futebol e a mestiçagem. Ou, vale dizer, cultura da ilusão.

Nesse ambiente vivemos no período republicano, pôde-se dizer assim, três grandes ciclos de intolerância que se misturam é só têm feito se agravar. O primeiro, envolve os excluídos. Com raízes no escravismo colonial, está para o Brasil como a segregação racial está para os EUA, com as diferenças de que aqui não deu origem a uma guerra civil e, muito menos, a um forte movimento em defesa dos direitos civil. Entre nós, a exclusão é parte da paisagem social como se o Brasil não crescesse e prosperasse graças à mão de obra barata dos excluídos.

O segundo, resultado do primeiro, é o anticomunismo. Tudo que possa se identificar com a questão social é logo rotulado de comunismo. Sob essa perspectiva, Getúlio Vargas e João Goulart, apesar de estanceiros, teriam sido comunistas. Nada mais falso. Getúlio, por exemplo, era santsimoniano, filósofo  e utopista social que pregava a aliança entre banqueiros, industriais e trabalhadores.  E isso só tem atrasado o Brasil desde os anos 30, o  se agravou com o golpe militar de 1964, se prolongando pela democratização pós-Constituição de 1988.

Só que em lugar da hostilidade ao comunismo, o alvo da intolerância passou a ser o petismo. De repente, como que tocado por uma varinha de condão, o PT passou a ser a razão de todos os males. Como nos anos 50 foi o reformista Getúlio Vargas que, nada tinha de comunismo, pelo contrário buscava uma via alternativa, assim foi também nos anos 60-70 com a democracia cristã. Em nome do anticomunismo barbaridades contra os direitos humanos foram aceitas e logo esquecidas.

Esquece-se hoje, por conveniência ou ingenuidade, os demais partidos e as ambiguidades do sistema político em que a ética  jaz encalhada e as reformas vêm sendo permanentemente  adiadas. Em lugar disso, se elege um inimigo e contra sua existência se prega a solução final. Em lugar do diálogo, a força; e, passada uma geração, tudo volta ao ponto de partida, só que com tinturas de uma crise social muito mais grave. É o que estamos vivendo.

Por fim, e esse é um fenômeno recente, dias atuais, o alvo da intolerância passou a ser o rico. Se um rico é preso, logo é culpado, porque a riqueza é altamente associada à corrupção. E ponto final. Repete-se no Brasil dos dias atuais, a intolerância de que foi alvo a aristocracia nos idos da Revolução Francesa (1789).

Seria João Santana condenável por trabalhar – e ser um profissional chave – para um governo dito de esquerda, contrário à exclusão social e bem sucedido, portanto rico?

Sou da mesma geração de Santana. Trabalhos juntos em O Globo e na redação da Revista Istoé – eu em São Paulo, ele em Brasília – e sempre o  admirei pelo talento, pela criatividade. Não o vejo há mais de 16 anos, mas não posso deixar de erguer a voz em sua defesa. O silêncio que envolve a vida de João Santana é uma metáfora das regras institucionalizadas.

Se no século passado, como muito bem observou Oliveira Viana, as instituições brasileiras eram vincadas pelo compadrio, o coronelismo, clientelismo,  familismo, no final do século 20 e neste início do século 21 com as campanhas políticas cada vez mais caras se institucionalizaram o Caixa 2 e a lavagem de dinheiro.

Os responsáveis são os marqueteiros? De que adiará simplesmente puní-los sem passar a limpo as instituições? Ou às instituições não caberia constranger ou não o cidadão a fazer a coisa certa, isto é, respeitar as leis? Qual o papel do indivíduo nesse jogo, que pode ser de faz de contas ou não? São questões como essas que a sociedade democrática não pode ignorar.

Dai, o silêncio ser assustador no caso de João Santana. Karl Marx entendia que a corrupção era um problema do capitalismo, o século XX provou que se tratava de um problema também do socialismo e do comunismo. Não seria o caso de se discutir o que ocorre no Brasil? Em lugar da intolerância, não existiriam alternativas não repressivas?

Ficam as questões e uma certeza: o silencia não é o melhor caminho para apontar soluções.

* Francisco Viana é jornalista, comunicador, doutor em filosofia política (PUC-SP) e autor dos livros “De Cara com a Mídia I e II”

* Os artigos reproduzidos neste espaço não representam, necessariamente, a opinião do Bahia Notícias

 

Em defesa de João Santana