A era da pós-verdade?

A era da pós-verdade?

Post-truth (pós-verdade): relativo ou referente a circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais.

 

Em 2016, as eleições presidenciais norte-americanas foram marcadas por uma avalanche de notícias falsas, entre elas que o papa Francisco apoiava as ideia do novo presidente Donald Trump e que o agente que investigava os e-mail da candidata do partido democrata, Hilary Clinton tinha sido assassinado. Verdade? Falso. Notícias falsas são cada vez mais comuns na galáxia da Internet e cada vez mais difícil de identificá-las. O Brasil, claro, não é exceção e exércitos de blogueiros são mobilizados todos os dias para maquiar as falsas notícias e fazer com que pareçam o que não são. Em Londres, por exemplo, crianças são ensinadas desde cedo a distinguir o que parece verdadeiro daquilo que realmente é para que, por esse caminho, possam exercer no futuro a cidadania.

O que tudo isso significa? É esse o significado da era da pós-verdade, a palavra-símbolo do ano de 2016, segundo o conceituado  Oxford Dictionaries? Post-truth, na tradução em inglês, quer dizer que no mundo atual as crenças e ideologias se sobrepõem sobre a objetividade dos fatos. É um modismo cuja sombra deve se projetar por algum tempo e tende a justificar preconceitos – como a homofobia, o ódio aos refugiados e às esquerdas – que se espalha como um veneno nas mídias e confunde o cidadão.

Pós-verdade, no sentido da sua circulação como argumento de comunicação, é evidente, tem os dias contados. Não resiste ao teste da realidade. Mas pode causar grandes danos pelos seguintes motivos: ela mexe com a identidade social que é algo frágil e, portanto, precisa ser sempre reforçada ou lembrada; ela favorece à dominação de um grupo conservador sobre um grupo progressista, ne medida em que o grupo conservador carece de argumentos para defender suas teses; ela conduz ao império da “opinião” que é volátil, fazendo-a soar como verdadeiras no confronto com os fatos. E, enfim, não constrói um saber coletivo, lastreado nos fatos, mas em pontos de vista, mais ou menos irracionais, que podem pender para o fascismo, distanciando a sociedade do combate as injustiças sociais e semeando ilusões. Consequentemente, os governos tendem a ficar desnorteados porque precisam se apoiar fortemente na opinião pública majoritária e , nesse sentido, não sabem distinguir o que é real de uma miragem.

No dizer do Dicionário de Oxford , o termo “pós-verdade” com o conteúdo agora definido, data 1992 e foi de autoria  do dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich. Ele escreveu um artigo no jornal The  Nation sobre a primeira guerra do golfo e defendeu a tese de que a sociedade norte-americana tratava os fatos como secundários, já que não havia provam de que o Iraque estocava armas nucleares –  o que depois de revelou falso – , mas mesmo assim apoio a invasão do país.

Tsich lamentava que “nós, como povo livre, decidimos livremente que queremos viver em uma espécie de mundo da pós-verdade”, ou seja, um mundo no qual a verdade não é mais tão importante ou relevante quanto foi no passado. Sugeria a pergunta: que democracia era americana que se deixava influenciar pelo medo como no passado as sociedades se deixavam mover pelas superstição ?

O palavra pós-verdade foi utilizada por Ralph Keyes no livro The post truth era: Dishonesty and deception in contemporary life (St. Martin’s Press, 2004). E recentemente  retomado pela revista The Economist para tentar entender porque os eleitores de Donald Trump  aceitam afirmações estapafúrdias como aquela  que diz que Barack Obama  é um dos fundadores do Estado Islâmico. No Brasil, podemos alinhar questões que vão da defesa da cura gay -??? – às explicações para os sucessivos casos de corrupção estrutural que não levam em conta a realidade. Mas, a rigor, poderíamos dizer que a pós-verdade permeia toda a história do Brasil, a começar pela intensa campanha anticomunista que antecedeu o golpe de 1964 e incluía o presidente e fazendeiro João Goulart entre os comunistas. Getúlio, que procurava uma alternativa para o comunismo que atraísse o operariado, em especial os jovens operários, era também rotulado de esquerdistas e comunista. Era na verdade um saintsimoniano cujo credo era a industrialização e sua a utopia uma grande aliança que reunisse industriais, banqueiros e operários. Assim, o Brasil se antecipou de muitas décadas à pós-verdade com resultados dos mais daninhos para as questões

É um recurso típico da falta de argumentos. Maquiavel no capítulo XV de O príncipe fala Das coisas pelas quais os homens, especialmente os príncipes, são louvados e vituperados. Se conhecesse a pós-verdade, certamente a alinharia entre as qualidades negativas que tanto condenava – ser mesquinho, cruel, desleal, pusilânime, soberbo, lascivo, incrédulo.

A pós-verdade ocupa, a julgar pelos princípios do filosofo do exercício do poder, a definição de retórica da impostura. Em lugar de admitir a realidade, o príncipe – leia-se o governante – recorreria ao arsenal da ilusão para seduzir o povo, isto em tempos difíceis em que o exercício de persuasão não é fácil. Para o comunicador, praticar a pós-verdade é um trabalho sujo, uma crueldade. Fere a razão.

A topografia da pós-verdade é escorregadia e equivale a uma não ética. Sua força é  a capacidade do outro de se iludir, mas a sua capacidade de sobrevivência, de viajar longe, é escassa, lhe falta autoridade, lhe falta a consistência da verdade factual. Pode, à primeira vista, vicejar num contexto receptivo, mas é por tempo limitado. Não sobrevive à uma avaliação mais cuidadosa, inteligente, não fantasiosa, e que leve em conta, sobretudo, a utilidade dos fatos, das ideias e, até mesmo das crenças. O ato de informar leva a agir e a ação não se sustenta sobre os preconceitos e mistificações. Em consequência, a pós-verdade inverte os sinais da estrada: o que é ilusório é tratado como “verdade” e o que é verdade – factual, para melhor entendimento – é visto como secundário.

O que está em jogo são os impactos da pós-verdade nas manifestações da opinião pública, fomentando ou não contradições, incitando ou não o ódio, favorecendo ou não à cristalização dos preconceitos. Em suma, até que ponto pode ter implicações éticas no reconhecimento recíproco das pessoas, na convivência no espaço público e na racionalidade da prática e os princípios da argumentação nas comunidades comunicativas. Como neutralizar seus efeitos é uma questão em aberto e mistura razão, filosofia da consciência e situação fictícia. Se deixarão encobrir pelos véus da ignorância? Prevalecerá a ética da discussão? Prevalecerá a discussão so real ou as crenças da subjetividade?

O calcanhar de Aquiles da pós-verdade é a opinião pública. A sua formação exige um espírito crítico coletivo. E este não pode ser dissociado da legitimidade, do saber, da informação fidedigna e da identidade coletiva. Não pode repousar em bases falsas. Pois depende da percepção das diferenças do outro. Pensar diferente, agir diferente, ser diferente.

Assim, é uma sociedade democrática. Se pudéssemos atualizar Descartes, em lugar de    “Penso, logo existo”, diríamos “Penso diferente, logo existo”.  Portanto, a pós-verdade é um modismo requentado. Vai e volta a depender da maior ou menor tendência da manipulação da opinião pública. Mas, é certo, se volatiliza ante a saudável teimosia dos fatos.

 

A era da pós-verdade?

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